Terça-feira, Janeiro 24, 2006
"If you think I'm paranoid, It's fine"
01:16
"Quem me acompanha, me guia, quando me perco de mim? Sei que não erro sozinho. Quem me leva? Quem me lava? Só a minha consciência, que me faz ser e a quem faço: tigre de garras ardentes, cajado que me sustenta, olhos de ágatas imóveis, severo anjo que me guarda. Mas às vezes me desguarda, me desguarnece da espada de orvalho que corta fúrias e solta a rédea dos ímpetos. Mas assim,desguarnecido, é quando sou porventura mais perto e limpo de mim."
[Thiago de Mello]
Cansei. Cansei de ser legal, cansei de ser profunda, cansei de ser poética, cansei de ser compreensiva, cansei de ser educada, cansei de ser incrível, cansei de pessoas que, no fim das contas, não estão nem aí. Cansei de manter "amigos" que não valem merda nenhuma simplesmente porque eles precisam de mim. Eu não preciso dessas pessoas, não preciso de nada disso, não preciso de palavras de carinho e gestos de amor que duram menos que uma rayovac de camelô. O fato é que, quando eles precisam, você está lá. Quando você precisa, eles estão em qualquer lugar, menos ao seu lado. É loucura querer esse tipo de gente por perto.
Mas o pior não é "perder" pessoas. O pior é perder a fé em todo mundo. Ficar sem saber em quem confiar, ficar se policiando pra não dizer certas coisas, ficar em dúvida quando colocar alguém pra dentro, pra conhecer seu mundo, seus entes e amigos queridos e suas manias. O mais incrível é que isso no final não tenha valor nenhum pra alguns. Se tudo o que tenho não tem valor, que valor tenho eu se sou o que tenho? Sou um monte de elipses que fazem qualquer coisa soar bem, porque escondem os problemas e redundâncias para mostrar frases feitas, noites perfeitas. E as manhãs terríveis e solitárias são só minhas...
Eu estou longe de ser o que eu quero. Enquanto isso, muitos se aproveitam da minha restante inocência. Deve ser bom usar as pessoas. Deve ser muito bom. Ainda mais pessoas pequenas, feito eu. Como um chiclete, que te dá um prazer ridículo [mas já é algo] até perder o gosto. Ou até você achar um chocolate. E então, você joga o chiclete na rua pra alguém pisar e entra pra dentro de casa com o seu chocolate suíço. Ele é tenro, macio, dissolve na sua boca. O chiclete que você jogou na rua não passa de borracha. Borracha não dissolve... Ela resiste às suas mordidas, suas investidas, todas elas. Seu chocolate não resiste. E você se sente irresistível com ele.
Analogia ridícula, superficial. Mas tem que ser assim, porque eu cansei de ser profunda. E, ao mesmo tempo, cansei de esconder o que eu sinto lá no fundo só pra não machucar ninguém. Tô escrevendo tudo aqui justamente pra que todos leiam. Eu tenho um blog alternativo, que pouca gente lê, poderia estar escrevendo lá. Mas qual é a graça de jogar as facas em quem não tem que ser rasgado? Eu quero ferir quem me fere. Eu quero partir a cara de quem não olhou na minha. Eu quero socar meio mundo no estômago. Eu quero deixar de ser covarde e falar abertamente sobre coisas que incomodam. Eu quero que você leia isso, entenda que é pra você e que você ganhou uma conhecida. Mas perdeu uma grande amiga.
No Radinho: Rilo Kiley - Don't Deconstruct
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Sexta-feira, Janeiro 13, 2006
Liberdade Ainda que Tardia...
23:34
Tolos os que pensam ser livres em pleno século XXI. Sim, caríssimos, vivemos todos em regime ditatorial. Não, eu não estou ficando louca e não passei férias na Coréia do Norte. Estou falando sobre tendências. Porque temos sim tendência a nos submeter a certas [erradas!] influências. Seguimos um cronograma para saber como agir, o que dizer, o que não pensar e o que escrever a respeito do que nos sobra para pensar sobre. Somos escravos de nós mesmos, da nossa burrice, do nosso comodismo, da nossa falta de personalidade, da nossa falta de coragem de mandar os paradigmas pra puta que pariu e viver da forma que achamos realmente conveniente. E não somos o que queremos ser porque gastamos nosso tempo sendo o que os outros querem.
Eu, sinceramente, ando bem cansada de ser o que os outros acham que eu sou, de não ter liberdade pra ser o que quero e fazer o que quero sem ser injustamente criticada. Sim, porque se eu me recuso a fazer o que esperam que eu faça, sou cruelmente julgada. Se eu faço uma ironia acerca da vida de pessoas desfavorecidas economicamente, sou uma filha da puta elitista. E se eu chamar de pobre, vou pro inferno. Se eu faço caridade, sou uma cretina vaidosa. Se eu trabalho e estudo, sou mártir. Se eu só estudo, às custas de meus pais, sou vagabunda. Se eu passar no vestibular, é porque fiz cursinho. Se não passar, é porque sou preguiçosa e não estudei o quanto devia.
Ora, vão se foder. A escravidão de todos nós está exatamente nessa mania de julgamento que carregamos no âmago [falei bonito agora, hein, aplausos] como se fosse uma tradição milenar. Reclamamos muito das tais velhas fofoqueiras na janela e não vemos que aquilo é só um esteriótipo, que somos piores, pois fazemos tudo o que elas fazem, só que por baixo dos panos. E se uso o pronome "nós", me incluindo nesse contexto, não é porque sou humilde e reconheço meus erros. É porque acho que o texto fica mais bonito assim. Não reconheço meus erros porra nenhuma, sou orgulhosa, superficial, antipática e excluo socialmente quem eu acho que devo. Tenho todos os defeitos que você condena, mas não os nego, são parte de mim, bem como minha indignação para com a hipocrisia nossa.
No Radinho: Emílio Santiago - Verdade Chinesa
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Quinta-feira, Janeiro 05, 2006
"A Minha Felicidade é um Crediário..."
13:20
Outro dia vi uma coisa que me deixou intrigada. O celular da empregada da minha tia é 15 vezes mais moderno que o meu. Agora pergunto-lhes, caros leitores: isso indica que ela tem uma renda mensal incrivelmente maior que a minha?! Não necessariamente, indica que eu deveria roubar o emprego dela a facilidade que existe hoje em dia para se adquirir um bem de consumo. Redes de lojas enormes e hiper populares parcelam produtos em 35878923174908374 vezes sem entrada e sem juros, fazem no cartão, no cheque, no crediário, aceitam dinheiro, ticket refeição, a coleção de bolinha de gude do seu filho e seu tercinho da primeira comunhão.
Se compararmos com alguns anos atrás, onde ter uma linha de telefonia fixa era coisa de burgueses desgraçados exploradores do proletariado coitadinho, podemos ter uma boa idéia do que isso significa. Que mundo lindo estamos construindo! Cheio de facilidades e regalias para todos! Estou emocionada. E ainda tem gente querendo aumento. Que disparate. Pessoas assim agem dessa forma porque nunca tiveram de enfrentar a fila do papel higiênico na URSS. E tenho dito!
[Se sua empregada anda te pedindo aumento, esse é o momento de você imprimir esse texto e mostrar para ela. Certeza que ela desiste, se você o fizer!].
No Radinho: Morrissey - Suedhead
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