Quarta-feira, Novembro 23, 2005
Resíduo
23:56
De tudo ficou um pouco Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco
Ficou um pouco de luz captada no chapéu. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco (muito pouco).
Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco. Da ponte bombardeada, de duas folhas de grama, do maço - vazio - de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana, dragão partido, flor branca, ficou um pouco de ruga na vossa testa, retrato.
Se de tudo fica um pouco, mas por que não ficaria um pouco de mim? no trem que leva ao norte, no barco, nos anúncios de jornal, um pouco de mim em Londres, um pouco de mim algures? na consoante? no poço?
Um pouco fica oscilando na embocadura dos rios e os peixes não o evitam, um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco. Não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda, meio sal e meio álcool, salta esta perna de rã, este vidro de relógio partido em mil esperanças, este pescoço de cisne, este segredo infantil... De tudo ficou um pouco: de mim; de ti; de Abelardo. Cabelo na minha manga, de tudo ficou um pouco; vento nas orelhas minhas, simplório arroto, gemido de víscera inconformada, e minúsculos artefatos: campânula, alvéolo, cápsula de revólver... de aspirina. De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco. Oh abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco, e sob as ondas ritmadas e sob as nuvens e os ventos e sob as pontes e sob os túneis e sob as labaredas e sob o sarcasmo e sob a gosma e sob o vômito e sob o soluço, o cárcere, o esquecido e sob os espetáculos e sob a morte escarlate e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes e sob tu mesmo e sob teus pés já duros e sob os gonzos da família e da classe, fica sempre um pouco de tudo. Às vezes um botão. Às vezes um rato.
(Carlos Drummond de Andrade)
E confesso que eu nem gosto muito do Drummond. Mas esse me arranca lágrimas.
No Radinho: Mundo Livre S.A. - Meu Esquema
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Sexta-feira, Novembro 11, 2005
Teoria dos Quinze Anos
20:25
Ahhh, meus quinze anos que se foram e não voltam mais... Graças a Deus! Que me desculpem os mais novinhos, mas ô idadezinha chulé, hein?! Puta que pariu, tá pra existir idade mais ridícula. Uhhh, pronto!, olha a chuvinha de debutantes me xingando! Caríssimos, guardem os elogios pra mamãe. Eu já tive quinze anos também, já sofri do mesmo mal que os acomete [a diferença é que eu era idiota assim quando tinha uns oito], já fui um inseto-wannabe-something, já fui tudo isso. Claro que toda regra tem exceção, mas no plano geral essas pessoas costumam ser insuportáveis. Dentre as exceções posso citar como exemplo muitos dos fidedignos leitores deste blog [olha o jabá], pois por vezes os acompanho em silêncio e consigo ver pessoas precocemente conscientes e inteligentes.
Falemos agora da massa: os 99% que tiram a paciência de qualquer Dalai Lama. Esses são aqueles que querem a todo custo aparecer, seja lá de que forma for [geralmente a primeira que encontram, pois são muito meticulosos em suas elaborações]. Para aparecer eles se utilizam de meios como o "Mamãe, eu quero um rótulo", artifício muitíssimo comum entre os aborrecentes de quinze. Como o próprio nome já diz, a prática consiste em adequar-se a um estilo de vida produzido pela mídia. Temos como exemplo os indies, emos, góticos, clubbers, alternativos [se bem que todo mundo é alternativo agora], entre outros grupinhos que povoam os clipes que a MTV exibe. Great. E depois que o cretino arruma uma tribo?! Ele adota um comportamento, meu bem... E é aí que a porca torce dolorosamente o rabo. Dentre as linhas de comportamento que esses diversos grupos adotam, podemos encontrar:
[Para meninas] a)A Revoltada: ela vai vestir roupas rasgadas, enfiar um boné do irmão ou do primo na cabeça, comprar um skate com o dinheiro da venda de suas Barbies, adotar o "fuck" como palavra oficial para desejar bom dia e depois de tudo pronto, vai "anarquizar". Mas não se preocupe, é tão perigosa quanto um pepino em conserva.
b)A Filha de Murphy: essa é um saco. Tudo pra ela é uma merda fedida. Os pais não compreendem, os irmãos maltratam, a escola é um inferno, ela é gorda, excluída, não tem amigos [pudera!] e todo dia tem prova surpresa de matemática. As palavras que ela mais profere são "fodeu", "tédio" e "merda". Essa, diferente da Revoltada, é nociva, pois é praticamente um elétron gigante, de tão negativa.
c)A Vaca Leiteira: também conhecida como "Pegadeira" ou "Cachorra", esse tipo é muitas vezes o motivo da má ventura das duas supracitadas. Por quê? Simples! Ela é linda, peituda, popular, poser, bem relacionada, chique e dá pra quem ela quiser! O lado triste é que ela pensa que é feliz, enquanto na verdade é vazia e infantil. Precoce em assuntos como sexo, aos 15 anos já deu pra rua inteira e com 20 vai ter sífilis e/ou quatro filhos. Uma observação: esse tipo de comportamento raramente é encontrado dentro do grupo dos indies.
[Para meninos] a)O Poeta: o garoto faz quinze anos, fuma uns becks, pega uma folha de papel e despeja nela todas as suas frustrações em versos decassílabos. Não, ele não tem o menor talento, mas mesmo assim acha tudo aquilo lindo e faz questão de assombrar os amigos com aqueles disparates aos literatos. Geralmente é um encalhado, mas um encalhado romântico que se masturba recitando.
b)O Ator: é aquele que faz cara de "eu sei", mas na verdade não sabe nada e é um bosta. Além de ser fútil e egocêntrico, ele é um belo mentiroso: fala bem, é articulado e eloqüente. Mas em vez de usar isso tudo a seu favor, ele fica estagnado usando sua cara de "eu sei", em vez de procurar saber. Esse é péssimo de xaveco, tem uma conversa maçante [geralmente sobre algum assunto que ele "leu" na Veja] e dá náuseas profundas em pessoas com cérebro.
c)O Malandro: esse é o inseto-mor. Largado, vagabundo, péssimo aluno, burro e retardado. É do tipo que passa o dia tocando baixo [guitarra é complexo pra ele] ou assistindo Chaves. Raramente é bonito e quando os pais são mais liberais, ele fuma, põe uns piercings, pendura alguma coisa em algum lugar, enfim, qualquer acessório que demonstre sua "alma evoluída e moderna". Quase sempre cata as Vacas Leiteiras. E sempre se acha o bom... Mal sabe que é o mais idiota.
No entanto, existem pessoas que mesmo depois dos quinze continuam adotando essas tribos e, conseqüentemente, alguns desses padrões de comportamento. Isso mostra que cronologia não é algo dogmático, idade mental é o que conta. Até porque, pra ser um débil mental, um jovem de quinze anos cronológicos precisa também ter quinze anos psicológicos. O que mostra que essa Teoria dos Quinze é algo que se aplica diretamente à idade mental: o retardado verdadeiro é o que age como tendo quinze, seja qual for sua idade cronológica. Não é birra, é uma verdade. Pessoas de quinze anos [psicológicos, cronológicos, os dois juntos, whatever] tendem a achar que são auto-suficientes quando não sabem limpar a própria bunda. Muitos chegam até a se dizer "ateus" nessa idade, sem ao menos saber o que é religião. Falam mal do que não conhecem quase sempre, mas é porque sequer conhecem a si próprios. São, definitivamente, a escória da pirâmide etária da humanidade. Mas volto a repetir: ninguém depende do tempo, e sim da própria consciência.
E você? Quantos anos você tem?
No Radinho: Os Mutantes - Balada do Louco
Obs.: Talvez eu tenha frustrado vocês com a minha decisão de não postar a respeito do referendo. Mas tomei essa posição porque não quis influenciar ninguém com a minha opinião sobre o assunto, já que sei que muitas pessoas votam sincronizado ¬¬. Mas agora que já passou, posso dizer que fui a favor do "Não", caso queiram saber.
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