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e a mãe, tá boa?
e a mãe, tá boa?





stephs fry em minúsculas e hype é o caraleo. idade mental que varia, cronológica que limita e cármica que confunde. loser, beesha, vagabunda, estourada, egocêntrica, crítica e pouco democrática. pros amigos, doce, prestativa e leal. pros "inimigos", indiferença cai bem. o fundamental pra viver? música, livros bons, filmes intrigantes e longos, lanchonetes pouco saudáveis e avenida paulista. the girl with the thorn in her side. não faço questão de ser diferente, ser igual é um conforto. do que eu não gosto? o espaço é pouco.

"how can they look in to my eyes and still they don't believe me?"
Quarta-feira, Outubro 12, 2005

Nostalgia
01:27

Minha avó lavava roupas. Era lavadeira desde muito. Quando não mais dependia disso p'ra se manter, lavava as roupas dos netos, que constantemente passavam as tardes em sua aconchegante casa com cheiro de almoço de domingo. Ficávamos eu, meus irmãos e meus primos na barra da saia d'avó, ouvindo ela contar os causos na beira do tanque. Eu gostava de um chamado "Pereira e o Pé de Pêra". E não me esqueço nunca do quanto era bom aquele abraço d'avó com o vestido molhado na altura da barriga, dado muitas vezes quando eu ficava com medo dos tais causos.

A minha avó tinha muitos tesouros em sua casa [além dos netos, é claro]. Dentre eles, tinha ela uma latinha embaixo de sua cama, onde afirmava guardar um Saci. Morríamos de medo, ninguém se atrevia a mexer na lata ensacizada. Mais tarde, quando eu e o resto da criançada tomamos coragem pra enfrentar o tal do Saci d'avó e abrimos a lata, fomos descobrir que não passava de mandinga pra manter família unida. Não, não foi um alívio. Tudo o que queríamos naquele dia, era um Saci. E não mais tinhamos um. Só um monte de mel com papéizinhos dentro. Mas a família era unida que só!

P'ra mim, contudo, o maior tesouro d'avó era a maletinha de K7s dela. Eu pegava a maletinha, ía colocando as fitas no rádio e ficava ouvindo as modas de viola que encantavam tanto a vovó. Passava horas ali, ouvindo e tentando acompanhar. Ela me pedia pra cantar pra ela "a música da carta". E eu, com uma voz estridente de criança chata, prontamente satisfazia a vontade da querida vovó: cantava uma música de uma dupla chamada João Mineiro & Marciano que vocês, estou certa, achariam breguérrima. Mas eu, quando eu ouço, ainda choro. De saudade, de arrependimento por não ter cantado mais vezes "a música da carta".

Ía me dar um violão, a minha avó. Era o que ela mais queria... Poder me dar um violão, pra me ver tocar as músicas que eu religiosamente ouvia todas as tardes com ela. Faleceu antes de conseguir me dar o violão. Ainda assim, eu o quis, pedi de minha mãe que me desse um. Ela me deu, virei guitarrista, esqueci das fitinhas da vovó. Como pude me esquecer da melhor parte da minha vida até agora? Hoje, quase dez anos após o falecimento da vovó, chorei ao tocar e cantar uma das músicas que ela cantava no tanque pra mim...: "Cuitelinho". Foi como se eu visse o rádio e as fitinhas na minha frente. Como se pudesse ouvir a 'vó cantando:

"A tua saudade corta
como aço de navaia...
O coração fica aflito,
bate uma e a outra faia.
E os óio se enche d'água...
Que inté as vista se atrapaia ai ai ai..."


As vista se atrapaia ai ai... Se atrapaia... Aço de navaia... Navaia. Bate uma, outra faia ai ai... Ai ai. Ai ai. Ai ai... Ai ai. E os óio se enche d'água... Se enche d'água... Enche d´água... D'água. Encheu... Ai ai. 'Dá mais pra escrever, não.

No Radinho: Pena Branca e Xavantinho - Cuitelinho


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