Sexta-feira, Agosto 26, 2005
É de [Fazer Cair] Lágrima
20:45
Que me desculpem os fãs mais fervorosos, mas o novo disco dos Hermanos, intitulado "4", é um belo lixo. Tentei gostar, ouvi setecentas vezes e cheguei à conclusão de que infelizmente eles frustraram as minhas expectativas. Pudera, o Ventura foi um marco, disco excepcional. Mas o 4 deu a impressão de que eles quiseram inovar sem mudar nada. Não entendeu? Eu explico. Dá a impressão que eles usaram os mesmos acordes em todas as músicas, o disco é clichê. É clichê sim: desde os acordes até os títulos, passando por versos tenebrosos como "Eu sei é um doce te amar/O amargo é querer-te pra mim". Se tivesse lido esse trecho sem ouvir a música, teria dito que é de alguma música do Zezé de Camargo.
Voltando à questão dos títulos, simplesmente esperava muito mais dos caras. Porra. "Morena", "O Vento", "Os Pássaros", "Pois é"... São músicas que devem ter 'isonômios' aos quilos, litros e garrafadas, espalhados por aí. O 4 inteiro é fortemente marcado pelo tom ultra-mega-high-depressivo das músicas, causou-me sonolência e deixou-me impaciente. É basicamente uma trilha sonora pra dor-de-cotovelo e foi difícil ouvir cada música até o fim. Pra não dizer que achei tudo péssimo sem exceção, darei um crédito p'ra melodia de "Morena", apesar do título ser manjado [duvido que o Alceu Valença ou o Zé Ramalho não tenham uma música com esse nome], da letra ser chata e do Marcelo Camelo cantar todas as músicas exatamente do mesmo jeito.
O 4 é maçante e é a maior prova de que os críticos são, em sua esmagadora maioria, uns boçais que sofrem de falta de personalidade e opinião agudas.
No Radinho: Los Hermanos - Cher Antoine
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Sexta-feira, Agosto 05, 2005
Senhores Passageiros...
00:19
É paçoca, drops de bala, chocolate, chiclete, salgadinho, água mineral, doce de leite, tudo que se pode por na boca. Os vendedores ambulantes estão em todos os coletivos da capital do estado de São Paulo. O que não me surpreende, posto que desemprego aqui é um clichê. Mas a questão que quero tratar aqui neste post, não é a existência desses ambulantes nos coletivos -isso nem mesmo me incomoda, pelo contrário-, mas a eloqüência dos mesmos. Eles têm um texto persuasivo e devidamente decorado que com destreza apresentam aos passageiros:
Senhores passageiros:
Me desculpem por incomodar a viagem de vocês, mas eu queria mostrar o meu trabalho para os senhores. Trago aqui o mais novo lançamento da [insira aqui o nome da empresa], um produto de qualidade, como vocês mesmos podem comprovar observando o selo da [insira aqui o nome de algum órgão regulador] aí no canto superior da embalagem. Em qualquer padaria, este produto é vendido por mais ou menos R$ 0,80. Eu estou aqui lançando uma promoção e oferecendo aos senhores este mesmo produto por apenas R$ 0,50 e se levar três, faço por apenas R$ 1,50 [essa é a parte em que eu começo a dar risada]. Para quem puder ajudar, obrigado, para quem não puder, obrigado da mesma forma. Deus os abençoe e boa viagem.
É incrível como eles falam bem! De duas uma: ou existe uma espécie de curso para ser vendedor de doce ambulante nos coletivos, ou eles têm assistido muito aos depoimentos de Roberto Jefferson, o mestre da eloqüência, na CPI. Tem ambulantes que são tão educados e tão eloqüentes, que eu compro o produto só por isso. Hoje mesmo comprei um saquinho de bala de coco caramelizada que um baiano simpático tava vendendo no ônibus. E dizia ele:
Calma que tem p'ra todo mundo! Balinha da Bahia, da terra de Jorge Amado, foi Gabriela quem fez! O papel é de Bom Jesus da Lapa, o plástico é de Abadia, o coco é de Sandeias, o caramelo é de Trancoso e foi ensacada em Salvador. E olha que baiano não mente! Aceito pagamento em dólar americano, canadense, australiano, libra esterlina, peso, euro, franco-suíço, ouro, prata, cobre e gasolina! E tem pra todo mundo, não empurra.
Fiquei tão impressionada com a eloqüencia e com a breve demonstração de cultura do rapaz, que não pude deixar de comprar. É engraçado, mas esse tipo de coisa me faz acreditar em um futuro melhor pra esse país. Por mais que isso não vá acontecer, prefiro pensar que vai. Um país de gente trabalhadora, esforçada. Esses montes de ambulantes que estão dentro dos ônibus vendendo seus docinhos e dando aula de articulação, poderiam estar na bandidagem, como eles mesmos dizem muitas vezes. Mas não, estão trabalhando, com a cabeça erguida e dignidade.
Pois é, senhores passageiros... Quem dera as pessoas usassem a inteligência que têm para inventar maneiras alternativas de ganhar o pão também na hora de votar. Talvez assim, essa utopia que tenho de um lugar melhor pra se viver, se tornasse algo palpável e merecidamente real.
No Radinho: Chico Buarque - Desalento
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